“Não tenho muitas dores. Apenas sinto uma enorme rigidez.”
Esta é uma frase que ouço regularmente na clínica. Curiosamente, quando avalio alguns destes pacientes, verifico que a mobilidade pode ser bastante boa. Os músculos não estão necessariamente excessivamente tensos e as articulações nem sempre apresentam limitações significativas.
Então, por que continuam a sentir rigidez? A resposta pode ser que a sensação de rigidez e a rigidez física medida não sejam necessariamente a mesma coisa.
Um estudo interessante publicado na revista Scientific Reports investigou pessoas com dor lombar persistente que também referiam sentir rigidez.
Os investigadores mediram a rigidez da coluna através de um dispositivo mecânico que aplicava uma pressão controlada na região lombar. Depois compararam essa medição objetiva com a forma como os participantes descreviam a sua própria sensação de rigidez.
Verificaram que:
Os investigadores sugeriram que a rigidez poderá, por vezes, funcionar como uma “inferência percetiva protetora”. Em termos simples, o sistema nervoso pode criar a sensação de rigidez para incentivar a pessoa a mover-se com maior precaução, mesmo quando a coluna não apresenta uma limitação mecânica.
O estudo foi relativamente pequeno, envolvendo apenas 30 participantes nas experiências iniciais, pelo que os resultados devem ser interpretados como preliminares. Ainda assim, oferece uma explicação interessante para algo que muitos profissionais de saúde observam na prática clínica.
Leia o estudo original ao clicar aqui.
Não. A sensação é completamente real.
Contudo, as sensações corporais não correspondem a medições diretas produzidas por uma única estrutura. O cérebro combina continuamente informação proveniente das articulações, músculos, pele, visão, sistema vestibular e experiências anteriores para estimar o que está a acontecer no corpo.
Também considera fatores como:
O resultado final pode ser uma sensação de rigidez, peso, tensão ou resistência, mesmo quando o movimento continua praticamente normal.
Isto não significa que a rigidez física nunca exista. A artrite, a inflamação, a contração muscular protetora, uma lesão aguda ou períodos prolongados de inatividade podem provocar limitações reais. O importante é perceber que a rigidez percebida e a rigidez mecânica não devem ser automaticamente consideradas a mesma coisa.
Os alongamentos não são, por si só, prejudiciais. Proporcionam uma sensação agradável e ajudam a movimentar-se melhor; não existe necessariamente motivo para deixá-los de fazer.
No entanto, insistir em alongamentos mais intensos poderá não resolver uma sensação que é produzida sobretudo como resposta protetora do sistema nervoso.
Algumas pessoas alongam-se várias vezes por dia, sentem-se mais soltas durante cerca de vinte minutos e depois voltam a sentir-se “presas”. Este padrão pode indicar que estão apenas a alterar temporariamente a sensação, sem abordar a razão pela qual o sistema nervoso continua a produzi-la.
Em vez de insistir constantemente nos mesmos tecidos, poderá ser mais útil proporcionar ao sistema nervoso uma maior variedade de experiências de movimento seguras.
Movimente a zona em várias direções, em vez de repetir sempre o mesmo alongamento.
No caso das costas, isto pode incluir flexão suave, rotação, caminhada, movimentos da bacia, dobrar a anca ou alternar entre estar sentado e levantar-se.
O objetivo não é atingir a amplitude máxima de movimento, mas sim mostrar ao sistema nervoso que diferentes movimentos continuam disponíveis e sob controlo.
Por vezes, aquilo que parece rigidez resulta parcialmente de uma diminuição da confiança ou da capacidade funcional.
Exercícios leves de fortalecimento podem demonstrar ao sistema nervoso que essa região consegue produzir e tolerar força. Com o tempo, o movimento com carga progressiva poderá ser mais útil do que tentar ganhar flexibilidade de forma repetitiva.
O problema pode não ser uma determinada “má postura”, mas simplesmente permanecer demasiado tempo na mesma posição.
Altere frequentemente a postura, levante-se regularmente, faça pequenas caminhadas e permita que as costas se movimentem ao longo do dia.
Pense na postura como algo dinâmico, e não como uma posição perfeita que deve ser mantida constantemente.
A dor e a rigidez tendem a agravar-se quando dormimos mal, atravessamos períodos de maior stress ou estamos a recuperar de esforços físicos elevados.
Estes fatores aumentam o estado geral de proteção do sistema nervoso. Nessas situações, um alongamento mais intenso poderá ser menos eficaz do que dormir melhor, manter atividade física ligeira e gerir temporariamente a carga física.
Dobrar-se, rodar o tronco ou tocar repetidamente nas costas para verificar se “ainda estão rígidas” mantém a atenção permanentemente focada nessa região.
É perfeitamente aceitável fazer uma avaliação ocasional. No entanto, monitorizar constantemente a sensação pode reforçar a ideia de que existe algum problema.
Em muitos casos, é mais útil concentrar-se naquilo que consegue fazer confortavelmente do que procurar continuamente a sensação de rigidez.

Os cuidados quiropráticos e outras formas de terapia manual podem ajudar algumas pessoas a sentirem menos rigidez, mesmo quando a rigidez mecânica praticamente não se altera.
Isto não significa necessariamente que uma vértebra tenha sido “colocada no sítio” ou que um tecido encurtado tenha sido permanentemente alongado.
A terapia manual fornece ao sistema nervoso uma grande quantidade de informação sensorial através da pressão, do toque, da mobilização articular e das alterações na informação proveniente dos músculos e articulações.
O sistema nervoso pode interpretar estes estímulos como nova informação acerca da região, modificando temporariamente a sensibilidade, a proteção muscular e a forma como o movimento é percecionado.
Um estudo aleatorizado publicado em 2020, realizado com pessoas com dor lombar persistente, encontrou alterações na sensibilidade à dor após manipulação da coluna, sem alterações significativas na rigidez lombar medida objetivamente. Importa referir que estas alterações neurológicas não corresponderam necessariamente a melhorias clínicas e que o estudo não incluiu um grupo placebo.
Clica aqui para ler o estudo de 2020.
Um estudo aleatorizado mais recente concluiu que uma única sessão de manipulação lombar alterou imediatamente a forma como o sistema nervoso utilizava a informação proprioceptiva da região lombar durante o equilíbrio. Trata-se de evidência promissora, mas ainda não demonstra quanto tempo este efeito dura nem se trata diretamente da sensação de rigidez.
Leia aqui o estudo de 2025.
Por isso, vejo a terapia manual como uma oportunidade para facilitar a recuperação:
Esta abordagem é muito diferente de criar dependência de tratamentos repetidos para “voltar a alinhar” a coluna.
Na Coastal Wellness, avaliamos se a sensação de rigidez resulta de uma verdadeira limitação do movimento, irritação dos tecidos, diminuição da capacidade funcional ou de uma resposta protetora do sistema nervoso. A partir dessa avaliação, escolhemos o tratamento mais adequado para cada pessoa.
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